PAULINA REGRESSA COM JURAMENTO DE FEITIÇARIA

Uma longa história de feitiçaria, um mundo de magia negra e fantasia, de sonhos e pesadelos, sobretudo de contrastes e contradições, em que as forças do bem e do mal travam uma luta contínua, é o que nos oferece a escritora Paulina Chiziane no seu terceiro romance, intitulado "O Sétimo Juramento". O novo livro, publicado pela Editorial Caminho, foi apresentado em Portugal, a 11 de Julho último, na Galeria da Sociedade Portuguesa de Autores.

N'"O Sétimo Juramento", de Paulina Chiziane, as mulheres buscam a vida e varrem a feitiçaria, garante a escritora moçambicana. O lirismo dos dois primeiros romances e uma espécie de autobiografia que se deixava antever em "Balada de Amor ao Vento" e "Ventos de Apocalipse" dissiparam-se nesta terceira narrativa. Paulina oferece-nos uma estória inquietante, misteriosa até, onde a tradição e a sabedoria de séculos passados emprestam uma inegável beleza a todo o enredo.
Ao director de uma empresa que, perante o primeiro obstáculo, recorre aos antepassados e mergulha no mundo da magia negra para resolver problemas que lhe acontecem diariamente, junta-se-lhe uma figura femenina. Enquanto o homem busca feitiços, a mulher jura varrê-los para longe de si. Um conflito entre duas personagens, marido e mulher, que se distancia um pouco dos romances anteriores, onde Paulina atribuía ao feminino um papel de destaque em todo o romance. Desta vez, a guerra moçambicana ficou em stand-by porque a escritora optou por rebuscar as contradições do povo moçambicano, que vive dividido entre o passado e o presente, a magia negra e a magia branca. Dualidades que Paulina Chiziane soube explorar da melhor forma, com vista a construir um romance inquietante do princípio ao fim.
A que crença recorrer quando nos surge uma desgraça? ou, como é que nos governamos nesta dupla realidade que se reparte entre a vida diária e a que nos é imposta, são alguns dos dilemas que Paulina tenta "solucionar" ao longo das cerca de 260 páginas que a Editorial Caminho publicou recentemente em Portugal. Tendo como referência os feitiços moçambicanos, a escritora desbrava neste "Juramento" o imaginário de um povo que vive de lendas e de curandeiros, de magias e inquietudes. Num estilo curto, simples e genuíno, Paulina proporciona-nos um retrato escrito das alegrias e das tragédias que nos reportam a um Moçambique real, de sobrevivência, de desigualdade e também de pobreza.
Entre feitiços, a autora revela a dimensão humana do seu povo, feita de costumes ancestrais, ainda hoje em vigor numa sociedade que convive com filosofias de vida bem diversas. Neste livro observamos um homem que recorre a estas magias, transmitidas de geração em geração, para justificar alguns acontecimentos menos bons que se intrometem na sua normal vivência. Reconstruindo esses lugares de medo e de esperança, Paulina oferece-nos uma visão própria, com um colorido singular, de gente comum que vive num clima marcado sobretudo pela dimensão mágica da feitiçaria.

Paula Braga